Hatha Yoga

Estes são os principais textos sobre Hatha Yoga e Yoga em geral. Divirta-se !

Hatha Yoga Pradipika - Capítulo IV

Samádhi.
IV:1.
Louvor a Shiva, o guru que se apresenta em forma de náda, bindu e kála. Aquele que se consagrar a ele alcançará o estado sem mácula, livre das correntes da ilusão (máyá).
(Náda é o som supersutil, similar à reverberação de um sino, representado pelo semicírculo (chandra) desenhado na letra Om; bindu é o som representado no Om pelo ponto sobre o semicírculo; kála é o tempo.)

IV:2.
A continuação expõe-se a excelsa técnica do samádhi que vence a morte, conduz à felicidade (eterna) e à gloriosa dissolução no Absoluto (Brahman).

IV:3-4.
Rája Yoga, samádhi, unmani, manomani, amaratva, láyá, tattva, shúnyashúnya, paramapáda, amanaska, advaita, niralamba, nirañjana, jivanmukti, sahaja e turíya são sinônimos.
[Yoga real, iluminação, elevação, elevação da mente, imortalidade, dissolução, verdade, plenitude no vazio, estado supremo, transcendência da mente, não dualidadade, estado de consciência sem refêrencias externas, estado de pureza absoluta, libertação neste corpo, espontaneidade e quarto estado de consciência (além dos estados de vigília, sono e sonho), são sinônimos.]

IV:5.
Assim como o sal que se dissolve na água se torna uma só coisa com ela, a alma e a mente se fazem uma. Isso é o samádhi.


IV:6.
Quando não há movimento de prána (durante o kúmbhaka) e a mente se dissolve na alma, tal estado de harmonia se denomina samádhi.
[Este estado é o samprájñata samádhi descrito por Pátañjali.]

IV:7.
Esse estado de equilíbrio que é a união da alma individual com a Alma Universal (jivátman e Páramátman), em que as construções mentais (sankalpas) cessam de existir, chama-se samádhi.
[Este estado é o asamprájñata-samádhi, no qual não se distingue entre sujeito conhecedor, objeto conhecido e processo de conhecimento.]

Efeitos.
IV:8.
Quem conhece realmente a grandeza do Rája Yoga? Graças aos ensinamentos transmitidos pelo guru, se alcançam o conhecimento verdadeiro, a libertação dos condicionamentos, a estabilidade suprema e os poderes paranormais (jñána, mukti, sthiti e siddhi).

IV:9.
Sem a ajuda e a compaixão de um autêntico guru, é muito difícil conseguir a renúncia aos desejos (vairágya), a percepção da verdade e o autêntico estado natural de iluminação (sahajávasthá).

IV:10.
Quando se desperta kundaliní mediante a prática de ásana, kúmbhaka e mudrá, o prána se dissolve no vazio (shúnya) de brahmárandhra.


IV:11.
O yogi que despertou a energia e se libertou de todo karma alcança de forma natural o estado de iluminação (samádhi).

IV:12.
Quando o prána flui por sushumná e a mente se dissolve no vazio (shúnya), o conhecedor do Yoga (que conseguiu suprimir o fluxo das modificações mentais) remove as raízes dos seus karmas.

Conclusão.
IV:13.
Louvor a ti, ó, Amara!, conquistador até mesmo do tempo, em cujas mandíbulas sucumbe o universo com todas as coisas animadas e inanimadas.
[O yogi perfeito é chamado aqui pelo epíteto Amara, que significa perfeito.]

Prána.
IV:14.
Amarolí, vajrolí e sahajolí se conseguem com sucesso quando a mente é reduzida ao estado de equilíbrio perfeito e o prána flui por sushumná.

IV:15.
Como pode obter-se o conhecimento se o prána ainda estiver vivo (está ativo) e a consciência não tiver morrido (não tiver suprimido seus processos mentais)? Somente aquele que conseguir permanecer na imobilidade absoluta, detendo o prána e a consciência, alcançará a libertação.


IV:16.
Uma vez dominada a técnica para abrir sushumná e fazer com que o prána flua por seu interior, será preciso praticar (sem descanso) em um lugar adequado até que kundaliní se estabeleça em brahmárandhra.

Sushumná.
IV:17.
O sol e a lua originam a divisão do tempo em forma de dia e noite. Sushumná (não obstante) devora o tempo. Isto é um grande secreto.

IV:18.
Há 72.000 nádís no corpo; de todas elas, sushumná é a que contém a energia divina (shambhaví shaktí) que apazigua o deus Shambu (Shiva); as outras não são de grande utilidade.

IV:19.
Com o prána controlado, deve-se despertar a kundaliní e acender o fogo gástrico para entrar em sushumná sem restrições.

IV:20.
Quando o prána flui através de sushumná se alcança o estado de estabilidade da mente (manomani). Qualquer outro tipo de prática será um simples esforço do yogi.

Prána e mente.
IV:21.
Aquele que detém o alento detém também o pensamento. Aquele que domina o pensamento domina igualmente o prána.


IV:22.
As duas causas da atividade mental são a energia vital e as propensões subconscientes (prána e vásaná): a inatividade de uma de elas provoca a inatividade da outra.

IV:23.
Quando a mente está absorta, prána se detém; quando prána está suspenso, a mente permanece quieta.

IV:24.
A mente e o prána estão relacionados entre si como o leite e a água, sendo suas atividades coincidentes; se houver movimento de prána, haverá movimento mental; se houver atividade mental, haverá movimento de prána.

IV:25.
Suspendendo a atividade de um deles (o prána e a mente), o outro igualmente irá parar; se um age, o outro também agirá. Se não permanecerem quietos, os sentidos estarão sempre ativos. Controlando-os, alcança-se moksha, a libertação suprema.

Mente e mercúrio.
IV:26.
A natureza da mente consiste em estar em movimento contínuo, igual que a do mercúrio; quando ambos ficam imóveis, há algo em este mundo que não possa conseguir-se?

IV:27.
Ó Párvatí! Quando o mercúrio é imobilizado, destrói as doenças. O prána tem a mesma capacidade. Quando estes morrem (tornam-se inativos), proporcionam vida; quando se controlam, a levitação é possível.

Prána, mente e sêmen.
IV:28.
Quando a mente fica quieta, prána se detém e, em conseqüência, o sêmen (bindu) permanece imóvel; quando o bindu permanece estável, o corpo, por sua vez, adquire força e estabilidade.

IV:29.
A mente domina os órgãos dos sentidos. O prána é senhor da mente. O estado de dissolução (láyá) controla o prána e, por sua vez, depende da vibração sutil (náda).

Liberação.
IV:30.
A quietude mental em si mesma se chama moksha, embora outros possam chama-la de outras maneiras; em qualquer caso, quando mente e prána se dissolvem, sobrevém uma indescritível alegria.

Láyá.
IV:31.
Quando cessam o movimento respiratório e a atração pelos objetos dos sentidos, quando não há movimento no corpo nem modificações nas mente, o yogi experiencia o Láyá Yoga.


IV:32.
Quando cessa completamente toda atividade mental e física se produz o indescritível estado do Láyá Yoga, do qual somente a alma é consciente, pois está além das palavras.

IV:33.
A dissolução acontece em brahmárandhra, o lugar onde se focaliza a concentração. A ignorância (avidyá), por meio da qual existem os cinco elementos, os sentidos e a energia presentes em todo ser vivo, dissolve-se no indiferenciado Brahman.

IV:34.
As pessoas repetem "láyá, láyá", mas, que é realmente láyá? É o estado de isolamento dos objetos dos sentidos, que surge quando as tendências subconscientes (samskáras) deixam de atualizar-se.

Shambhaví mudrá.
IV:35.
Os Vedas, os Shástras e os Puránas são como prostitutas (pois estão disponíveis para todo o mundo). O shambhaví mudrá, pelo contrário encontra-se cuidadosamente guardado, como uma mulher casta.

IV:36.
Shambhaví mudrá consiste em concentrar a mente no interior (em qualquer um dos chakras) enquanto se mantém fixo o olhar sobre um objeto exterior, sem pestanejar. Os Vedas e os Shástras mantêm este mudrá em secreto.


IV:37.
Shambhaví mudrá é um estado em que mente e prána se tornam uno com o objeto interno, enquanto o olhar permanece fixo, como vendo tudo, quando em verdade não vê nada. Quando, graças ao guru, se alcança esse estado, que está além do vazio e do não-vazio (shúnyashúnya), em que tudo se torna uma manifestação do grande Shambu (Shiva), então se manifesta a realidade.

IV:38.
Tanto shambhaví mudrá como khecharí mudrá, embora difiram no ponto em que se fixa o olhar e no objeto de concentração, têm em comum que ambos proporcionam o estado de felicidade que advém quando se dissolve a mente no vazio (no átman), o qual é um estado de bem-aventurança em si mesmo.
[Denomina-se vazio porque não está afetado por tempo, espaço ou matéria. É um estado vazio de si mesmo e também de objetos distintos de si mesmo. Os pontos de fixação do olhar nos dois mudrás são diferentes, porque em shambhaví mudrá a olhar se dirige para o exterior, e em khecharí para o intercílio. Os objetos de concentração são diferentes porque em shambhaví mudrá a atenção se fixa no anáhata chakra e em khecharí mudrá, no ájña chakra.]

IV:39.
O estado unmani surge de forma natural quando o olhar se dirige para a luz que aparece durante a concentração na ponta do nariz, se levantam um pouco as sobrancelhas e se concentra a mente, como foi explicado antes (shambhaví mudrá).


IV:40.
Alguns se enganam com as promessas dos Ágamas, outros, com os enigmas dos Vedas e outros ainda com a dialética. Nenhum deles conhece aquilo com cuja ajuda pode-se atravessar o oceano da existência.

IV:41.
Com os olhos entreabertos, o olhar fixo na ponta do nariz, a mente calma e o fluxo de prána imobilizado em ídá e pingalá, permanecendo em um estado de quietude (corporal, sensual e mental) se alcança o estado mais elevado, em forma de luz radiante que é a fonte de todas as coisas e, em si mesmo é o Todo, a suprema realidade; que mais pode-se dizer?

Lingam.
IV:42.
Não se deve adorar o lingam nem de dia nem de noite; o lingam deve adorar-se somente quando tiverem deixado de existir o dia e a noite.
[O lingam simboliza o Ser, o átman. Os símbolos dia e noite fazem referência à circulação de prána pelas nádís solar (pingalá) e lunar (ídá) respectivamente. Isto significa que não se deve meditar no ser enquanto o prána estiver fluindo pelas duas nádís. Primeiramente deve cessar o movimento de prána em ídá e pingalá, para faze-lo fluir posteriormente por sushumná.]

Khecharí mudrá.
IV:43.
Quando prána, que normalmente flui pelas nádís direita e esquerda (as abandona e) se move por sushumná, então pode-se praticar khecharí mudrá até alcançar a perfeição, sem dúvida alguma.


IV:44.
Quando o vazio entre ídá e pingalá (sushumná), devora a corrente de prána, sem dúvida o khecharí mudrá torna-se perfeito.
["Devorar o prána" quer dizer que este deve permanecer estável em sushumná.]

IV:45.
Entre ídá e pingalá há um espaço vazio chamado vyoma chakra onde se aplica a língua para a prática do mudrá chamado khecharí.

IV:46.
Khecharí mudrá, que recolhe o néctar procedente da lua, é a amante visível de Shiva; a entrada da incomparável e divina sushumná nádí deve bloquear-se elevando a língua em direção ao céu da boca.

IV:47.
Sushumná também quedará bloqueada quando se preencher com prána. Este é o perfeito khecharí mudrá, que conduz ao unmani avasthá.

IV:48.
Entre as sobrancelhas está a moradia de Shiva, o lugar onde a mente se aquieta; este estado mental (samádhi) se conhece como turíya. Nele, o tempo (a morte) não pode entrar.
[O turíya é o "quarto estado" de consciência, que está além da vigília, do sono e do sonho.]


IV:49.
Deve-se praticar khecharí mudrá até alcançar o estado de yoganidrá; o tempo (a morte) não existirá para quem conseguir isto.

Dissolução.
IV:50.
Uma vez liberada a mente de todo objeto e conceito, já não surgem mais pensamentos. Então, a mente parece um jarro vazio, rodeado e preenchido de espaço.

IV:51.
Quando cessa a respiração exterior (com a prática de khecharí), também o faz a interior (a produção de prána); então, a corrente de prána e a corrente mental param no lugar apropriado (brahmárandhra).

IV:52.
O praticante que dia e noite dirige o fluxo de prána (através de sushumná), consegue dissolver a mente no lugar onde o prána se dissolve.

IV:53.
Deve-se inundar o corpo de pés à cabeça com o néctar (que flui da lua, o soma chakra). Assim, o corpo irá adquirir grande força e valor. Assim o khecharí (foi descrito).

IV:54.
Centrar a mente em shaktí e manter shaktí no centro da mente; observar a mente com a mente e fazer do supremo estado (samádhi) o objeto de concentração.

(É preciso manter o prána na mente e a mente em brahmárandhra. Então, contemplando a kundaliní shaktí, a mente e kundaliní tornam-se uno.)

IV:55.
Colocando o si mesmo (átman) em meio de ákasha (Brahman) e ákasha em meio do si mesmo, reduzindo tudo à natureza de ákasha (além do tempo e do espaço), não se pensa em mais nada.

IV:56
Assim, o yogi em estado de meditação permanece vazio no interior e vazio no exterior, como um jarro vazio no espaço. Ao mesmo tempo, sente plenitude no interior e plenitude no exterior, como um jarro imerso no oceano.

IV:57.
Não deve haver processos mentais sobre coisas externas ou internas. Devem abandonar-se todos os pensamentos subjetivos e objetivos. É preciso deixar de pensar.

IV:58.
A totalidade de este mundo é somente uma criação da mente; até mesmo a própria atividade mental é uma ilusão. Quando se tiver transcendido a consciência, composta de processos mentais, se encontra repouso no imutável. Então, certamente ó Ráma!, encontrarás a paz.

IV:59.
Igual que a cânfora na chama e o sal na água, a mente se dissolve em contato com a alma.


Máyá.
IV:60.
Todo o que se apresenta ante a mente não é mais que aquilo que se pode conhecer, pois a mente é o conhecimento mesmo; quando o processo de conhecimento e o objeto de concentração se absorvem reciprocamente, desaparece toda dualidade.

IV:61.
Tudo em este mundo, tanto os seres animados como os objetos inanimados, são uma criação da mente; quando a mente alcança o estado transcendente, deixa de experimentar-se a dualidade.

Conclusões.
IV:62.
Quando se abandonam todos os objetos de conhecimento, a mente se absorve (no satchitánanda: ser, consciência e bem-aventurança) e somente o estado de libertação (kaivalya) permanece.

IV:63.
Os diferentes caminhos que conduzem ao samádhi, que utilizam diferentes técnicas, foram descritos pelos grandes mestres da Antigüidade, que basearam os ensinamentos em sua própria experiência.

IV:64.
Louvor a sushumná, a kundaliní, ao néctar que flui da lua, ao manomani avasthá e à grande shaktí, sob a forma da Consciência Pura.


Náda.
IV:65.
Agora se descreve a prática de náda (anáhata), tal como a ensinou Gorakshanatha, válida incluso para os menos ilustrados, incapazes de compreender a realidade.

IV:66.
O Primevo Senhor Shiva mostrou inúmeros caminhos que conduzem ao láyá, mas ao que parece, o melhor de todos é a prática do Náda Yoga.

IV:67.
O yogi, sentado em muktásana e adotando shambhaví mudrá, deve escutar atentamente o som interior que se ouve no ouvido direito.

IV:68.
Cerrando os ouvidos, o nariz, a boca e os olhos, então se ouvirá claramente um som no purificado sushumná.
[Os ouvidos devem fechar-se com os polegares, os olhos com os indicadores, o nariz com os dedos meios e anulares e a boca colocando os mínimos nas comissuras dos lábios. Esta técnica também recebe o nome de yoni mudrá.]

Etapas.
IV:69.
Toda prática de Yoga abrange quatro etapas: arambhavasthá, ghatávasthá, Parichayávasthá e nishpatti avasthá.

Arambhavasthá, o estado inicial.
IV:70.
Arambhavasthá: quando o "nó de Brahmá" (brahmágranthi, situado no múládhára chakra) é atravessado (com a prática de pránáyáma), se experiencia uma espécie de beatitude no shúnya (ou ákasha, elemento espaço, no chakra do coração). Ouvem-se sons cintilantes, como de guizos, (no centro) do corpo.

IV:71.
Em quanto se faz audível o som no vazio (interior), o corpo do yogi se torna resplandecente e brilhante; emana uma deliciosa fragrância, se afasta da doença e seu coração se enche (de prána e felicidade).

Ghatávasthá.
IV:72.
Ghatávasthá: na segunda etapa, prána se une com apána, náda e bindu e entra no chakra do meio (na garganta). Neste estágio os ásanas se aperfeiçoam e surge a sabedoria divina.

IV:73.
Quando o vishnugranthi é atravessado (pelo prána durante o kúmbhaka), a felicidade suprema está próxima. No vazio do vishuddha chakra surge um som que ressoa como o rufar do timbal.

Parichayávasthá.
IV:74.
Parichayávasthá: na terceira etapa percebe-se um som parecido ao de um tambor mardala, ecoando no espaço do intercílio; então, prána entra no grande vazio (mahashúnya, isto é, sushumná), a sede de todos os siddhis.

IV:75.
Uma vez superado o estado de felicidade puramente mental (alcançado ao escutar os sons supersutis antes descritos), experiencia-se de forma espontânea a felicidade que deriva do conhecimento do átman. Neste ponto, superam-se todos os desequilíbrios (dos dhatus, humores corporais), as dores, a velhice, a enfermidade, a fome e o cansaço.

Nishpatti avasthá.
IV:76.
Nishpatti avasthá: uma vez atravessado o "nó de Rudra" (rudragranthi, no ájña chakra, no intercílio), o prána alcança o assento de Íshvara (no topo da cabeça, sahásrara chakra). Então se ouve um som como o da flauta, que assume depois a ressonância da víná.

IV:77.
A integração mental (em um estado no qual a dualidade sujeito-objeto não existe) se denomina Rája Yoga. O yogi se torna assim mestre da criação e da destruição, como Íshvara (assumindo poderes comparáveis a Íshvara).

IV:78.
Chame-se ou não libertação, isto é a felicidade perfeita; esta felicidade provém da absorção (láyá) e se consegue através do Rája Yoga.

Hatha e Rája.
IV:79.
Há muitos que são apenas hathayogis e não conhecem o Rája Yoga; estes são simples praticantes que nunca alcançam os frutos de seus esforços.

Unmani avasthá.
IV:80.
A concentração no espaço entre as sobrancelhas é a melhor forma de alcançar o unmani avasthá em pouco tempo. Mesmo para as pessoas de intelecto limitado, esta é a forma mais adequada para alcançar o Rája Yoga. O estado de absorção que nasce de náda, proporciona esta experiência de forma imediata.

IV:81.
(Todos) os grandes yogis que alcançaram o estado de samádhi através da concentração no náda, sentiram em seus corações uma felicidade ímpar, que está além de toda descrição e que somente pode conhecer-se pela graça do abençoado mestre (Sri Gurunatha).

Prática do náda.
IV:82.
O praticante silencioso (muni), fechando os ouvidos com os polegares, ouve (atentamente) o som supersutil (em seu interior) até alcançar o estado imutável (turíya).

IV:83.
Por meio da prática da audição atentiva, o som interior sobrepõe-se gradualmente aos sons exteriores; assim o yogi, em quinze dias, pode superar a instabilidade mental e alcançar a felicidade suprema.

IV:84.
Nas primeiras etapas da prática se podem ouvir diversos sons interiores fortes, mas na medida em que se progride, estes se tornam cada vez mais sutis.

IV:85-86.
No início, ouvem-se interiormente vários sons, como o rugir do oceano ou o trovão, como o tambor jarjara ou o timbal. Na etapa intermédia os sons se percebem como um tambor mardala, a concha, o sino, a trombeta. Finalmente, o som se assemelha ao dos crótalos, ao da flauta, ao da víná e ao das abelhas. Os diferentes sons se escutam desde o centro do corpo.

IV:87.
Embora possam perceber-se os sons fortes, como o do trovão ou o do timbal, é preciso dirigir a atenção exclusivamente aos sons mais sutis.

IV:88.
Embora a atenção possa alternar-se entre os sons fortes e os sutis, deve-se impedir que a mente, ao ser de natureza instável, vagueie por todas partes.

IV:89.
Pode-se conseguir a estabilidade meditando em qualquer som interno em que a mente fixe primeiramente a atenção. Esse é o estado de láyá, em que se absorvem a mente e o som.

IV:90.
A mente absorta em náda não sente atração pelos objetos dos sentidos, igual que uma abelha que quando bebe o néctar (das flores), não se preocupa com seu cheiro.

IV:91.
O afiado gume de ferro do náda restringe efetivamente a atividade da mente, que se comporta como um elefante louco (difícil de controlar) vagueando pelo jardim dos objetos sensoriais.
(Aqui se faz referência ao pratyáhára, que consiste em retrair os sentidos da influência que os objetos exercem sobre eles.)

IV:92.
Quando a mente estiver despojada da sua (habitual) natureza inquieta e ficar firmemente contida pelas rédeas do som sutil (náda), alcançar-se-á a estabilidade, igual a um pássaro com as asas cortadas, que não pode voar.

IV:93.
O yogi, desejoso de alcançar o domínio do Yoga, deve reduzir ao mínimo toda atividade mental e, com a mente totalmente concentrada, meditar exclusivamente no náda.
(A mente deve tornar-se uma coisa só com o som sutil.)

Semelhanças.
IV:94.
O náda é como a armadilha que captura o antílope interno (a mente); e também como o caçador que mata ao animal interior (o pensamento conceitual).

IV:95.
O náda é como o ferrolho da porta que encerra o cavalo (o pensamento conceitual) do yogi; por conseguinte, deve-se meditar diariamente sobre ele.

IV:96.
A mente e o som sutil agem como o mercúrio e o sulfuro quando se unem. A mistura solidifica-se e o mercúrio (a mente) perde sua natureza ativa. Assim, a mente torna-se capaz de mover-se sem apoio no espaço (que é Brahmá).

IV:97.
A mente é como a serpente interior que, ouvindo o náda, esquece qualquer outro conteúdo e, absorta na unidade, pára de mexer-se em qualquer direção.

Asamprájñata samádhi.
IV:98.
O fogo que queima um tronco se apaga quando consumiu toda a madeira; assim também a mente, quando permanece concentrada (e não busca mais combustível), dissolve-se no náda.

IV:99.
A mente (antahkarana) é como o antílope que, atraído pelo som da fêmea no cio, fica imóvel e pode ser facilmente ferido pelo arqueiro (isto é, pode ser totalmente silenciada por aquele que dominar o prána).
IV:100.
O que se pode ouvir neste ponto é a ressonância mística de um som; e a quintessência disso que se ouve é o supremo objeto de conhecimento, a consciência absoluta (chaitanya). A mente (antahkarana) torna-se una com a consciência, dissolvendo-se nela. Este é o supremo estado de Vishnu (o Ser Onipresente).

IV:101.
O conceito de ákasha (o substrato do som) existe somente enquanto o som supersutil pode ouvir-se. A realidade transcendental (Brahman) manifestada no silêncio é o supremo átman.

IV:102.
Tudo o que se ouve sob a forma do divino náda é de fato shaktí. O estado que está além de toda forma, no qual os elementos (tattvas) se dissolvem (láyá), é o Supremo Senhor (Parameshvara). Aqui concluem as instruções sobre o som supersutil (náda).

Unmani avasthá.
IV:103.
Todas as práticas do Hatha e o Láyá Yoga não são mais que meios para conseguir o Rája Yoga; quem realizar o Rája Yoga triunfará sobre a morte.

IV:104.
A mente é a semente, o Hatha Yoga o solo e o desapego (vairágya) a água; com estes três elementos cresce rapidamente a árvore sagrada (kalpavriksha) do unmani avasthá.

IV:105.
Por meio da meditação constante no náda, destroem-se todos os desejos acumulados e a mente e o prána dissolvem-se definitivamente na imaculada consciência absoluta (esvaziada dos gunas).

IV:106.
Durante o unmani avasthá o corpo se assemelha a um pedaço de madeira. O yogi não se estremece nem pelo poderoso som da concha (shankha) nem pelo do grande tambor (dundubhi).

IV:107.
O yogi que supera todos os estados e se libera de todos os pensamentos, parece estar morto (isto é, permanece imutável ante os estímulos externos). Ele está liberado, sem sombra de dúvida.

Samádhi.
IV:108.
O yogi em samádhi não é atingido pelo processo do tempo (a morte), nem pelo fruto das ações (karma); nada nem ninguém pode afetar-lhe.

IV:109.
O yogi em samádhi não recebe nada através dos sentidos; não conhece a si mesmo nem aos demais.

IV:110.
Aquele cuja mente não está desperta nem dormida, livre das lembranças e do esquecimento, para quem nada permanece quieto o ativo, aquele é realmente um liberado (jivanmukti).
[A mente dorme quando perde a faculdade de discernir entre os diferentes objetos, pois tamas encobre os órgãos dos sentidos, superando rájas e sattva. O estado de samádhi não é de vigília porque não se experienciam os objetos dos sentidos. Tampouco é um estado no qual surjam lembranças, pois não se trata de uma modificação mental que surgiu antes, e não se desperta de tal estado. Permanece-se livre do esquecimento, porque não há impressões mentais que conduzam à lembrança. Não se está quieto, porque existem ainda impressões residuais; e tampouco ativo, porque as modificações mentais cessaram seu movimento.]

IV:111.
O yogi em samádhi é insensível ao calor e ao frio, à dor e ao prazer, à honra e ao insulto.

IV:112.
Certamente, trata-se de uma pessoa liberada, de aspecto saudável (com a mente clara e desperta), que parece dormido mas está desperto, que não inala nem exala (devido ao kevala kúmbhaka).

IV:113.
O yogi em samádhi não pode ser ferido por arma alguma, nem ser atacado por ninguém; está além das influências de mantras e yantras.

Conclusão.
IV:114.
Enquanto o prána não entrar em sushumná e alcançar sua meta no brahmárandhra, enquanto o bindu não estiver controlado mediante a contenção da respiração, enquanto a consciência (chitta) não refletir sem esforço sua autêntica natureza (Brahman) durante a meditação, aqueles que falam de conhecimento espiritual não serão mais que charlatões indignos de confiança.

Aqui conclui o quarto e último capítulo do Hatha Yoga Pradípiká, que versa sobre láyá, náda e samádhi.
Í ndice temático (com referência ao número do verso) Capítulo IV Samádhi, 1-7 Efeitos, 8-12 Conclusão, 13 Prána, 14-16 Sushumná, 17-20 Prána e mente, 21-25 Mente e mercúrio, 26-27 Prána, mente e sêmen, 28-29 Liberação, 30 Láyá, 31-34 Shambhaví mudrá, 35-41 Lingam, 42 Khecharí mudrá, 43-49 Dissolução, 50-59 Máyá, 60-61 Conclusões, 62-64 Náda, 65-68 Etapas, 69 Arambhavasthá, 70-71 Ghatavastha, 72-73 Parichayávasthá, 74-75 Nishpatti avasthá, 76-78 Hatha e Rája, 79 Unmani avasthá, 80-81 Prática do náda, 82-93 Semelhanças, 94-97 Asamprájñata samádhi, 98-102 Unmani avasthá, 103-107 Samádhi, 108-113 Conclusão, 114

Tradução e comentários: Pedro Kupfer

 Entre em contato
  Aummmmmm