Hatha
Yoga Pradipika - Capítulo III
Kundaliní, o poder serpentino.
III:1.
Assim como Ánanta, a serpente infinita, sustenta a Terra com suas montanhas
e florestas, da mesma forma a kundaliní é o fundamento de todas
as práticas de Yoga.
III:2.
Quando a kundaliní adormecida desperta por mediação
do guru, todos os chakras e todos os granthis são
atravessados.
III:3.
(Então) a sushumná nádí torna-se
o caminho real do prána, a mente fica inativa e
o yogi vence a morte.
III:4.
Sushumná, shúnyapadavi, brahmárandhra,
mahapatha, shmashana, shambhaví, madhyamárga,
se referem à mesma coisa.
III:5.
Assim, se deve praticar com empenho os diversos mudrás
a fim de despertar à poderosa deusa kundaliní que
dorme cerrando a entrada a porta de acesso ao Absoluto
(sushumná).
Mudrás,
os gestos de poder.
III:6-7.
Os dez mudrás são: mahamudrá, mahabandha,
mahavedha, khecharí, uddiyana bandha, múla
bandha, jalándhara bandha, viparíta karaní,
vajrolí mudrá e shaktí chalana. Eles
destroem a velhice e eliminam a morte.
III:8.
Shiva
ensinou estes gestos, que proporcionam os oito siddhis;
os siddhas se esforçam em sua prática, mas
eles são difíceis de se dominar, mesmo para
os deuses.
III:9.
Devem manter-se cuidadosamente em secreto, como uma caixa
de jóias; e não devem mencionar-se a ninguém,
como a relação adúltera com uma
mulher de boa família.
Mahamudrá,
o grande gesto.
III:10.
Para fazer mahamudrá deve-se pressionar o calcanhar
esquerdo no períneo e, mantendo esticada a perna
direita, segurar os dedos do pé direito com as mãos.
III:11.
Depois, se contrai a garganta (em jalándhara bandha)
e se conduz o prána para cima (por sushumná);
Desta forma kundaliní se move para cima, como uma
serpente cutucada por uma vara.
III:12.
Então, as outras nádís ficam (geladas),
sem vida (porque o prána já não as
percorre).
III:13.
Exalar a continuação muito lentamente, nunca
depressa; os sábios denominam esta prática
mahamudrá, o grande selo.
III:14.
Com esta prática, se destroem os kleshas e se vence
a morte; é por isso que os homens mais sábios
a chamam mahamudrá, o grande selo.
III:15.
Depois de praticar com o (calcanhar) esquerdo (no períneo)
se deve repetir com o direito, finalizando a prática
quando se houver executado igual número de vezes
para cada lado.
III:16.
Para quem pratica (o mahamudrá) nenhum alimento é já saudável
o prejudicial, pois todas as coisas, independentemente
de seu sabor, inclusive as que não têm sabor,
e até o mais poderoso veneno, se digerem e se tornam
néctar para ele.
III:17.
Aquele que pratica mahamudrá supera problemas como
emagrecimento, lepra, hemorróidas, inchaço
do abdômen (gulma), moléstias digestivas e
outras.
III:18.
Assim foi descrito o mahamudrá, que proporciona
grandes siddhis aos homens; deve manter-se cuidadosamente
em secreto, sem revela-la a ninguém.
Mahabandha,
a grande contração.
III:19.
Mahabandha: coloca-se o calcanhar esquerdo contra o períneo
e o pé direito sobre a coxa esquerda.
III:20.
Depois da inspiração, pressionando firmemente
o queixo contra o peito (em jalándhara bandha),
deve-se contrair os esfíncteres e concentrar a atenção
em sushumná.
III:21.
Após reter a respiração o maior tempo
possível é preciso exalar lentamente; depois
de ter praticado pelo lado esquerdo, deve-se fazer o mesmo
mudando a posição das pernas.
III:22.
Segundo outras versões, não é necessário
contrair a garganta (jalándhara bandha); em seu
lugar, deve pressionar-se a língua firmemente contra
a raiz dos dentes superiores (jihva bandha).
III:23.
Através desta prática (de mahabandha com
jihva bandha), que ajuda a conseguir grandes siddhis, detém-se
o fluxo ascendente do prána por todas as nádís
(a exceção de sushumná).
III:24.
Esta técnica permite liberar-se da grande armadilha
de Yama, o deus da morte, consegue ainda a união
das três correntes prânicas (ídá,
pingalá e sushumná) e possibilita que a mente
permaneça concentrada em Kedara (a moradia do deus
Shiva).
III:25.
Igual que a beleza e o encanto não servem de nada
para uma mulher se ela não está junto a um
homem, o mahamudrá e o mahabandha são inúteis
sem o mahavedha.
Mahavedha, a grande passagem.
III:26.
Mahavedha: o yogi, sentado em mahabandha, deve inalar com
a mente concentrada e deter a continuação
o fluxo de prána tanto para cima como para abaixo,
por meio de jalándhara bandha.
III:27.
Com as palmas das mãos apoiadas no solo, o yogi
deve elevar seu corpo no ar para deixar-se cair suavemente
sobre seus glúteos várias vezes. Assim, o
prána abandona as nádís (ídá e
pingalá) e penetra em sushumná.
III:28.
Desta forma acontece a união da lua, o sol e o fogo
(ídá, pingalá e sushumná),
que conduz à imortalidade; quando o corpo adquirir
aspecto de cadáver, o yogi deve exalar (lentamente).
III:29.
Com a prática de mahavedha se conseguem grandes
siddhis; ele faz desaparecer rugas e cabelos brancos e
instabilidade do corpo (sinais de velhice) e, portanto, é praticado
pelos melhores mestres.
Efeitos.
III:30.
Estas são as três (práticas) que devem
manter-se secretas e que protegem contra a morte e a velhice,
aumentam o fogo gástrico e proporcionam poderes
paranormais (siddhis), como animan e outros.
III:31.
Estas três devem praticar-se oito vezes ao dia, a
cada três horas; isto aumenta os efeitos benéficos
das ações e elimina os negativos; quem receber
a instrução adequada às praticará gradativamente.
Khecharí: técnica.
III:32.
Khecharí: com a língua recolhida para cima
e para trás, obstrui-se o orifício de conexão
do palato com as fossas nasais e se fixa o olhar no ponto
entre as sobrancelhas.
III:33.
A língua deve alongar-se gradualmente, cortando
(o freio), agitando-a e esticando-a até que se possa
tocar o intercílio. Então se consegue realizar
propriamente o khecharí mudrá.
III:34.
Com uma faca limpa e muito afiada, em forma de folha de
cacto, se faz um corte da espessura de um cabelo na base
do freio da língua.
III:35.
Depois, se esfrega a região com uma mistura de sal
de rocha e cúrcuma. Depois de sete dias, é preciso
cortar novamente a espessura de um cabelo.
III:36.
É
preciso continuar fazendo o mesmo durante seis meses, com
cuidado e de forma gradual. Então, o freio da língua
ficará completamente cortado.
III:37.
Quando o yogi dobra a língua para cima e atrás,
pode fechar o ponto em que se cruzam as três nádís,
denominado vyoma chakra; este é o khecharí mudrá.
Khecharí:
efeitos.
III:38.
O yogi que permanece apenas por meio kshana (período
de vinte e quatro minutos) com a língua para cima,
liberta-se de envenenamentos, doenças, velhice e
morte.
III:39.
Quem dominar o khecharí mudrá não
se verá afetado pela doença, a morte, a decadência
mental, o sono, a fome, a sede o a falta de lucidez intelectual.
III:40.
Quem dominar o khecharí mudrá ficará livre
das (leis do) karma e do tempo.
III:42.
Uma vez obstruído o orifício da parte superior
traseira do palato por meio do khecharí mudrá,
o yogi pode controlar a ejaculação, até mesmo
no abraço mais passional com uma mulher.
III:43.
E até mesmo que aconteça a ejaculação,
o bindu será forçado para cima, por meio
de yonimudrá.
Somarása: o néctar
celestial.
III:44.
Quem domine os secretos do Yoga pode vencer a morte em
quinze dias, mantendo a língua dobrada para trás,
com a mente concentrada e bebendo o néctar vital
(somarása).
III:45.
O yogi que inunda seu corpo diariamente com o néctar
que flui da "lua" (somarása) é imune
ao veneno, mesmo que seja mordido pela serpente takshaka.
III:46.
Da mesma forma que o fogo arde enquanto houver combustível
e a lâmpada ilumina enquanto tiver óleo e
pavio, a alma permanece no corpo enquanto houver néctar
brotando do terceiro olho (soma chakra).
III:47.
Quem comer carne de vaca (gomansa) e beber aguardente (amaravarunni)
diariamente, será considerado como uma pessoa
distinguida; em outro caso, desprestigiará sua
família.
III:48.
A palavra go alude à língua; "come-la" (gomansabhaksna) é introduzir
a língua na cavidade do palato. Isto destrói
as ações errôneas (pápa).
III:49.
Quando a língua se volta para trás e penetra
na garganta, o corpo se aquece muito e flui o somarása.
Isto se chama amaravarunni.
III:50.
Se o yogi pressionar a língua contra o orifício
do palato, fazendo fluir o somarása, que tem sabor
salgado, ácido e picante, mas que também
parece leite, mel e ghee, elimina todas as doenças
e a velhice, se torna invulnerável aos ataques armados,
alcança a imortalidade e os oito siddhis e se torna
irresistível para as mulheres siddhas.
III:51.
Aquele que, com o olhar dirigido para cima e a língua
fechando o orifício do palato, medita sobre Parashaktí e
bebe da clara fonte do néctar, desde a cabeça
até o loto de dezesseis pétalas (vishuddha
chakra), por meio do controle do prána, se libera
de toda enfermidade e vive muito tempo com um belo corpo,
elegante como um talo de loto.
III:52.
Aquele que possui uma mente pura (da natureza de sattva,
não ofuscada ela ação de rájas
e tamas) reconhece a verdade (da sua própria alma)
no néctar segregado desde a cavidade de onde surgem
as nádís, na parte superior do monte Meru
(o interior da cabeça, acima do intercílio);
da "lua" surge o néctar, a essência
corporal e, da sua perda, a destruição
física. Por conseguinte, se deve praticar o benéfico
khecharí mudrá (para deter a perda); do
contrário não se conseguirá obter
a perfeição física (caracterizada
por beleza, graça, força e autocontrole).
III:53.
Tal cavidade, na abertura superior de sushumná, é o
lugar de confluência dos cinco rios (as cinco principais
nádís) e proporciona o conhecimento divino;
no vazio da abertura, livre da influência da ignorância
(avidyá), da dor e das ilusões (o yogi, através
do) khecharí mudrá, alcança a perfeição.
Conclusão.
III:54.
Existe somente um gérmen de evolução:
o mantra Om; existe somente um mudrá: khecharí;
somente um dever: chegar a ser independente de tudo, e
somente um estado mental: o manomani avasthá (estabilidade
da mente).
Uddiyana bandha, elevando a energia.
III:55.
Uddiyana bandha: chama-se assim entre os yogis porque com
sua prática o prána voa para cima por sushumná (uddiyana
significa "vôo ascendente").
III:56.
Graças a este bandha, o grande pássaro prána
(váyu) voa incessantemente através de sushumná;
a continuação se explica uddiyana bandha.
III:57.
Chama-se uddiyana bandha à retração
do abdômen por cima do umbigo (de tal forma que se
pressione em direção às costas e ao
diafragma); é o leão que vence o elefante
(a morte).
III:58.
Aquele que praticar com freqüência uddiyana
bandha seguindo as instruções do seu guru,
até que a contração se produza de
forma natural e constante, rejuvenescerá, por idoso
que seja.
III:59.
Deve-se contrair vigorosamente o abdômen na região
do umbigo para cima e para trás. No prazo de seis
meses se vencerá à morte, sem sombra de dúvida.
III:60.
Entre todos os bandhas, uddiyana é o melhor. Quando
se consegue domina-lo, a liberação se produz
espontaneamente.
Múla
bandha, contraindo a base.
III:61.
Múla bandha: pressionar o períneo com o calcanhar
e contrair o (esfíncter do) ânus para fazer
subir apána.
III:62.
Por meio da contração de múládhára,
a corrente de prána, que normalmente flui para abaixo, é forçada
a subir (por sushumná); os yogis chamam este exercício
múla bandha.
III:63.
Pressionando o calcanhar contra o períneo, se faz
força sobre apána, até começar
o movimento ascendente.
III:64.
Através de múla bandha, tanto prána
e apána como náda e bindu se unem e proporcionam
o sucesso no Yoga, sem sombra de dúvida.
III:65.
Com a prática constante de múla bandha se
alcança a união de prána e apána,
se reduzem consideravelmente as secreções
(de urina e excrementos) e incluso os mais velhos rejuvenescem.
III:66.
Quando apána se eleva e alcança a moradia
do fogo (manipura chakra), alimenta e intensifica a chama
(do fogo interior).
III:67.
Quando apána e o fogo se unem ao prána, quente
por natureza, um clarão intensamente abrasador brota
no corpo.
III:68-69
Kundaliní adormecida, aquecida por esse abrasamento,
desperta. Tal como uma serpente tocada por uma vara, ela
se levanta sibilando; e como se entrasse em sua toca, entra
na brahmánádí (sushumná, o
canal central). Portanto, o yogi deve praticar sempre múla
bandha.
Jalándhara bandha, o fecho que controla as redes
prânicas.
III:70.
Jalándhara bandha: (consiste em) contrair a garganta
e manter o queixo firmemente contraído em direção
(à parte superior do) peito (porém sem toca-lo).
O jalándhara bandha destrói a velhice e a
morte.
III:71.
Este bandha se chama jalándhara porque contrai a
rede (jala) das nádís e detém o fluxo
descendente do néctar, que goteja desde o soma chakra,
no intercílio, através da cavidade do palato.
O jalándhara bandha elimina todas as afecções
da região da garganta.
III:72.
Quando se contrai a garganta em jalándhara bandha,
o néctar (do soma chakra) não seca no fogo
gástrico (manipura chakra) e o prána não
se agita (não se desvia do caminho certo).
III:73.
Quando a garganta está firmemente contraída
as duas nádís (ídá e pingalá)
ficam "mortas" (inativas). Na garganta fica o
vishuddha chakra, onde confluem as (nádís
que conectam os) dezesseis centros vitais.
(Esses pontos vitais, chamados ádháras são:
polegares, tornozelos, joelhos, coxas, períneo,
pênis ou clitóris, umbigo, coração,
nuca, garganta, língua, nariz, intercílio,
frente, cabeça e brahmárandhra).
Bandha
traya, a contracao tríplice.
III:74.
Praticando (simultaneamente) uddiyana bandha, múla
bandha e jalándhara bandha, faz-se ascender o prána
por sushumná.
III:75.
Desta forma, o prána fica imóvel em sushumná e
se vence a velhice, a doença e a morte.
III:76.
Os yogis conhecem estes três bandhas que praticavam
os grandes siddhas, eles são meios fundamentais
para conseguir o sucesso no Hatha Yoga.
Viparíta karaní mudrá,
a atitude invertida.
III:77.
Viparíta karaní mudrá: todo o néctar
(somarása) que produz a lua celestial (soma chakra)
acaba sendo devorado pelo sol. É assim que envelhece
o corpo.
III:78.
Existe uma excelente prática (karana) por meio da
qual se pode burlar o sol, mas somente a podemos aprender
do guru e não pelo estudo teórico dos shástras.
III:79.
Trata-se de viparíta karaní, que mantém
o sol, no plexo solar, por cima da lua, sobre o palato;
isto deve aprender-se seguindo as instruções
do guru.
III:80.
Aquele que pratica diariamente incrementa seu fogo gástrico.
Portanto, deve ter sempre comida abundante.
III:81.
Se o yogi reduzir a alimentação, o fogo consumirá rapidamente
seu corpo. No primeiro dia deve permanecer por pouco tempo
apoiado sobre a (parte posterior da) cabeça (e os
ombros), com os pés voltados para cima.
III:82.
Deve-se aumentar a duração da prática
de forma gradual, dia a dia. Após seis meses de
prática, desaparecem cabelos brancos e rugas. Praticando
três horas ao dia, vence-se a morte.
Vajrolí mudrá,
o gesto adamantino.
III:83.
Vajrolí mudrá: até mesmo aqueles que
levam uma vida desordenada, sem observar as disciplinas
prescritas no Yoga, podem desenvolver os siddhis, poderes
paranormais, dominando vajrolí mudrá.
III:84.
Para esta prática se necessitam duas coisas difíceis
de se obter: leite (no momento preciso) e uma mulher que
se comporte do modo desejado.
III:85.
Aspirando o sêmen (bindu) que se ejacula durante
a relação sexual (maithuna), seja o sujeito
homem ou mulher, se obtém sucesso na prática
de vajrolí.
III:86.
Com cuidado, soprar com força no interior do pênis
com a ajuda de um tubo (inserido na uretra), a fim de permitir
a passagem do ar (para o interior).
(Precisa-se conseguir primeiramente um cateter fino, de
quatorze dedos de comprimento, e inserí-lo na uretra,
aprofundando gradativamente a inserção na
largura de um dedo a cada dia, até que se introduzem
doze dedos, fica de fora um comprimento de dois dedos,
que se dobra para cima; a continuação insere-se
um tubo mais fino por dentro do anterior e sopra-se com
suavidade para limpar a passagem de impurezas; depois se
continua absorvendo água através do tubo
e progressivamente líquidos cada vez mais densos
até, finalmente, absorver o próprio sêmen
- primeiro com a sonda e depois sem ela - somente se obterá sucesso
se a respiração se mantiver controlada e
se dominar o khecharí mudrá.)
III:87.
O bindu que está prestes a ser ejaculado na vagina
de uma mulher deve absorver-se com a ajuda de vajrolí mudrá;
se a ejaculação já tiver acontecido,
deve-se reabsorver o próprio bindu junto com os
fluidos vaginais a fim de preserva-lo.
(Durante a ejaculação, a uretra sofre contrações
espasmódicas, reflexas e irreprimíveis que
expulsam o esperma; o vajrolí mudrá reduz
o perigo da ejaculação, diminuindo a sensibilidade
dos terminais nervosos da uretra, que reduzem o reflexo
ejaculatório sem alterar o desejo sexual.)
III:88.
Desta forma, o yogi preserva seu bindu e vence a morte.
Quando se desperdiça o bindu, a morte acontece
a seu devido tempo, mas quem o preserva vive uma longa
vida.
III:89.
Retendo o bindu com ajuda de vajrolí mudrá,
o corpo do yogi emana um agradável aroma. Enquanto
o bindu estiver retido no corpo, ele não teme à morte.
(Vajrolí afirma os testículos e tonifica
as gônadas, o que aumenta o vigor e a virilidade,
enquanto a produção incrementada de hormônios
masculinos rejuvenesce o organismo.)
III:90.
O bindu dos homens fica sob o controle da mente, e a vida
depende do bindu. Portanto, a mente e o bindu devem ser
protegidos por todos os meios.
III:91.
Quem dominar esta prática deve absorver por completo
o sêmen junto com os fluidos vaginais da mulher com
quem tem relação sexual, através do
pênis.
Sahajolí mudrá, o gesto espontâneo.
III:92.
Sahajolí mudrá: sahajolí e amarolí são
diferentes variações de vajrolí, dependendo
do resultado obtido. É preciso misturar cinzas de
esterco com água.
III:93.
Após a prática de vajrolí durante
a relação sexual, uma vez finalizada toda
atividade, o homem e a mulher sentados confortavelmente,
devem esfregar as partes mais nobres de seu corpo (cabeça,
frente, olhos, coração, ombros e braços)
com esta mistura.
III:94.
Isto se denomina sahajolí e deve ser estimado pelos
yogis, pois é um processo benéfico que proporciona
a liberação através da experiencia
sensual.
III:95.
Esta técnica somente é dominada por aquelas
pessoas virtuosas e valentes, que conhecem a verdade e
não são em absoluto invejosas.
Amarolí mudrá,
o gesto perfeito.
III:96.
Amarolí mudrá: segundo a doutrina secreta
dos kapálikas, amarolí consiste em beber
a própria urina (amari) uma vez fria, descartando
a primeira descarga, por possuir excesso de bílis,
e a porção final, por ser muito rala.
III:97.
Quem bebe amari, o cheira e pratica vajrolí diariamente,
recebe o nome de praticante de amarolí.
Vajrolí para a yoginí.
III:98.
Misturam-se cinzas com bindu após a prática
de vajrolí e se esfregam com esta mistura as partes
nobres do corpo, obtendo-se assim a visão divina.
III:99.
Se uma mulher praticar o suficiente como para tornar-se
uma experta, se for capaz de absorver o bindu (ejaculado
em seu interior) por um homem e o retiver dentro por
meio de vajrolí, transformar-se-á em uma
yoginí.
III:100.
(Assim) sem dúvida, não se perde nem a mais
mínima quantidade de fluxo vital feminino. No corpo
(da yoginí) o náda transforma-se em bindu.
III:101.
Se o sêmen (bindu) e o fluido feminino (rájas)
permanecerem unidos no interior do corpo mediante vajrolí,
consegue-se todo tipo de siddhi.
III:102.
A yoginí que preserva seu rájas mediante
uma contração ascendente pode conhecer o
passado e o futuro, e alcançar a perfeição
em khecharí.
Conclusão.
III:103.
Mediante a prática do Yoga de vajrolí, obtém-se
a perfeição do corpo (beleza, graça
e força); este tipo de Yoga proporciona mérito
(púnya) e, embora coexiste com a experiência
sensual, conduz à libertação (moksha).
Kundaliní.
III:104.
Kutilangí, kundaliní, bhujangí, shaktí, íshvarí,
kundalí, arundhatí: todas estas palavras
são sinônimas.
III:105.
Assim como a porta se abre com a chave, o yogi abre a porta
da libertação mediante o Hatha Yoga e o
poder de kundaliní.
III:106.
A grande deusa (kundaliní) dorme fechando com sua
boca a passagem através da qual se pode ascender
ao brahmárandhra (a passagem da energia psíquica
pelo "orifício de Brahmá", no alto
da cabeça), o lugar onde não existe dor nem
sofrimento.
III:107.
Kundaliní shaktí, que dorme sobre o bulbo
(kanda, onde convergem as nádís), proporciona
libertação ao yogi e escravidão ao
ignorante. Aquele que conhece a kundaliní, conhece
o Yoga.
III:108.
Kundaliní se descreve enroscada como uma serpente;
aquele que conseguir fazer com que a shaktí se movimente
(de múládhára para cima) alcançará a
libertação, sem sombra de dúvida.
III:109.
Entre os rios sagrados Gangá e Yamuná está sentada
uma jovem viúva praticando tapas; é necessário
possuí-la pela força, pois isto conduz à morada
suprema de Vishnu (seu esposo, no sahásrara chakra,
no alto da cabeça).
III:110.
O sagrado Gangá é ídá e o Yamuná é pingalá;
entre ídá e pingalá está a
jovem viúva kundaliní.
Shaktíchalana mudrá,
sacudindo o poder serpentino.
III:111.
Shaktíchalana kriyá: deve-se despertar a
serpente adormecida (kundaliní) segurando firmemente
seu rabo; então, shaktí abandona seu sono
e se ergue com força.
III:112.
Depois de inalar por pingalá, a adormecida serpente
deve ser manejada mediante a técnica paridhána,
a fim de move-la diariamente durante uma hora e meia, tanto
ao amanhecer como ao entardecer.
(A técnica paridhána é similar ao
nauli, pois consiste em mover os músculos abdominais
de esquerda à direita, de direita à esquerda
e em espiral.)
Kanda, o centro do corpo sutil.
III:113.
O centro do corpo sutil (kanda, localizado atrás
do umbigo) tem uma extensão de doze dedos. Está situado
por cima do ânus, a uma distância de quatro
dedos e tem um aspecto delicado, de cor branca, como coberto
por um pedaço de pano branco.
III:114.
Sentado na postura vajrásana seguram-se os pés
perto dos tornozelos e pressionam-se (os calcanhares) sobre
o kanda.
III:115.
Em vajrásana, depois de movimentar a kundaliní,
o yogi deve praticar bhástriká kúmbhaka,
a fim de despertá-la rapidamente.
III:116.
Depois deve contrair o sol para obrigar a kundaliní a
ascender. Embora se sinta chegar às portas da morte,
o yogi não sente medo de nada.
[O sol, súrya, é a região do abdômen,
perto do umbigo, que se contrai por meio de uddiyana bandha.]
III:117.
Quando se move kundaliní sem medo por aproximadamente
uma hora e meia, ela entra no canal sushumná e ascende
um pouco por ele.
III:118.
Desta forma, kundaliní deixa livre a entrada de
sushumná, e é puxada sem esforço para
cima pela corrente de prána.
Efeitos.
III:119.
Portanto, deve-se mover todos os dias esta arundhati (kundaliní),
que dorme confortavelmente, pois assim o yogi ficará livre
de doenças.
III:120.
O yogi que move a shaktí consegue os siddhis; que
mais pode dizer-se? Vence o tempo, como se se tratasse
de uma simples encenação.
III:121.
Somente o yogi que leva uma vida de brahmácharya,
observa uma dieta moderada e saudável, e pratica
Yoga estimulando corretamente a kundaliní, desenvolverá os
siddhis no prazo de quarenta dias.
III:122.
Uma vez posta em movimento a kundaliní, deve-se
praticar especialmente o bhástriká kúmbhaka.
Donde pode surgir o medo da morte em um yogi que se autocontrola
e pratica sempre de acordo com as instruções
corretas?
Outras
técnicas.
III:123.
Além da prática de shaktíchalana,
que faz a kundaliní movimentar-se, que outras técnicas
existem para remover as impurezas das 72.000 nádís?
III:124.
O canal sushumná se alinha (para facilitar a passagem
do prána) por meio da prática de ásana,
pránáyáma e mudrá.
III:125.
Quem permanecer atento à prática (livre da
preguiça) e concentrado em samádhi, obterá grandes
benefícios tanto de shambhaví mudrá como
de outros mudrás.
III:126.
Sem Rája Yoga não há terra; sem Rája
Yoga não há noite; sem Rája Yoga são
inúteis todos os mudrás.
III:127.
Todas as técnicas de pránáyáma
devem realizar-se com a mente concentrada; o sábio
não deve permitir que sua mente vagueie (enquanto
pratica os exercícios).
Conclusões.
III:128.
Shiva, o Primeiro Senhor (Adinatha), descreveu desta forma
o dez mudrás; cada um deles outorgará grandes
siddhis a quem permanecer autocontrolado (yamin).
III:129.
Aquele que transmite os ensinamentos sobre estes mudrás,
recebidos por sua vez da maneira tradicional, de guru a
discípulo, esse é verdadeiramente um guru,
e se pode chamar mestre, Senhor (Íshvara) em forma
humana.
III:130.
Aquele que seguir cuidadosamente estes ensinamentos, concentrado
na prática dos mudrás, será capaz
de vencer a morte e conseguirá os siddhis como
animam (e outros).
[Os oito siddhis clássicos são: animam, "atomização",
a capacidade de reduzir à vontade o tamanho do corpo;
laghimam, "levitação", a capacidade
de flutuar ou voar; prápti, "atingir",
a habilidade de expandir o corpo conforme a própria
vontade; prákámyam, "preenchimento dos
desejos", a capacidade de mergulhar na matéria
sólida como se fosse líquida; mahimam, "magnificação",
o poder de expansão infinita; íshitritva, "soberania",
o poder de manipular a natureza; váshitvam, "mestria",
controle sobre os elementos materiais; e kámávasáyitvam, "moradia
do desejo", a capacidade de realizar qualquer desejo.]
[Aqui
conclui o terceiro capítulo do Hatha Yoga
Pradípiká, que versa sobre a força
kundaliní, os mudrás, os bandhas e seus efeitos.]
Í
ndice temático (com referência ao número
do verso) Capítulo III Kundaliní, 1-5 Mudrá,
6-9 Mahamudrá, 10-18 Mahabandha, 19-25 Mahavedha,
26-29 Efeitos, 30-31 Khecharí: técnica, 32-37
Khecharí: efeitos, 38-43 Néctar, 44-53 Conclusão,
54 Uddiyana bandha, 55-60 Múla bandha, 61-69 Jalándhara
bandha, 70-73 Bandha traya, 74-76 Viparíta karaní mudrá,
77-82 Vajrolí, 83-91 Sahajolí, 92-95 Amarolí,
96-97 Vajrolí para a yoginí, 98-102 Conclusão,
103 Kundaliní, 104-110 Shaktíchalana, 111-118
Kanda, 113-114 Efeitos, 119-122 Outras técnicas,
123-127 Conclusões, 128-130
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