Hatha
Yoga Pradipika - Capítulo I
Invocação inicial e apresentação.
I:1.
Eu saúdo o Primevo Senhor, Shiva, que ensinou o
conhecimento do Hatha Yoga, à sua esposa Párvatí.
Este conhecimento, como uma escada, conduz ao elevado Rája
Yoga.
I:2.
O yogi Svátmáráma, depois de saudar
solenemente a deidade e seu guru, estabelece desde o início
que o ensinamento do Hatha Yoga é somente um meio
para a realização do Rája Yoga.
I:3.
Para aqueles que vagueiam na escuridão das diferentes
doutrinas conflitantes, incapazes de seguir o Rája
Yoga, o compassivo Svátmáráma oferece
a luz do Hathavidyá.
I:4.
Svátmáráma aprendeu o Hathavidyá dos
mestres Goraksha e Matsyendra.
I:5:9.
Shiva, Matsyendra, Shábara, Anandabhairava, Chaurangi,
Mina, Goraksha, Virupaksa, Bileshaya, Manthána,
Bhairava, Siddhi, Buddha, Kanthadi, Korantaka, Suránanda,
Siddhipáda, Charpati, Káneri, Pújyapáda,
Nityanatha, Nirañjana, Kapáli, Vindunatha,
Kakachandísvara, Alláma, Prabhudeva, Ghodácholi,
Tintini, Bhánukin, Náradeva, Khanda, Kápálika
e muitos outros mahasiddhas, havendo conquistado o tempo
por meio do Hatha Yoga, existem ainda no universo.
I:10.
O Hatha Yoga é um refúgio para aqueles que
sofrem os três tipos de dor. Para todos aqueles que
se dedicam ao Yoga, o Hatha Yoga é a tartaruga que
sustenta o mundo (a base que sustenta suas práticas).
[Segundo a visão hindu, esses três tipos de
dor ou aflição são ádhyátmika, ádhidaivika
e ádhibhautika. O ádhyátmika pode
ser de dois tipos: dor física ou dor mental; ádhidaivika
são os sofrimentos provocados por influencias planetárias; ádhibhautika
são as aflições produzidas pelos fenômenos
naturais: chuva, seca, terremotos, etc.]
I:11.
O yogi que almejar o sucesso deve manter o Hatha Yoga em
rigoroso secreto, pois somente assim ele será efetivo.
Quando divulgado indiscriminadamente, perde todo seu
poder.
Lugar
para a prática.
I:12.
Deve-se praticar Hatha Yoga em uma pequena e solitária
ermida (matha), livre de pedras, água e fogo (excessiva
exposição aos elementos naturais), em uma
região onde impere a justiça, a paz e a prosperidade.
I:13.
O matha deve ter uma pequena porta e carecer de janelas.
O piso deve estar nivelado; nem demasiado alto nem demasiado
baixo, e deve conservar-se muito limpo, coberto de esterco
de vaca mistruado com água (um germicida natural)
e livre de insetos. O exterior deve ser agradável,
com uma entrada, uma plataforma elevada e um poço
de água. O conjunto deve estar rodeado por um
muro. Estas são as características da ermida
descritas pelos siddhas que praticaram Hatha Yoga.
I:14.
Em tal lugar o yogi, livre de toda preocupação,
se dedicará unicamente à prática do
Yoga seguindo as instruções de seu guru.
Requisitos
para a prática.
I:15.
O yogi fracassa por excesso de comida, esgotamento físico,
embuste, ascetismo exagerado, companhia inadequada e inquietude.
I:16.
O sucesso no Yoga depende de esforço, determinação
destemida, audácia, conhecimento discriminativo,
perseverança, fé (nos ensinamentos do mestre)
e afastamento de toda companhia (supérflua).
Atitudes
prévias.
Os dez yamas são: ahimsá, satya, asteya,
brahmacharya, paciência, temperança, compaixão,
honestidade, moderação na dieta e shauchan,
purificação. Os dez niyamas são: tapas,
santosha, espírito religioso, caridade, Íshvarapranidhána,
svádhyáya, simplicidade, inteligência,
japa e yatna.
Posturas.
I:17.
Em primeiro lugar, se expõem os ásanas, pois
eles constituem o primeiro passo do Hatha Yoga. Os ásanas
se praticam para conquistar postura firme, saúde
e flexibilidade.
I:18.
A continuação se descrevem alguns dos ásanas
adotados por sábios como Vasistha e por yogis como
Matsyendra.
Posturas gerais.
Svastikásana, postura auspiciosa.
I:19.
Svastikásana: sentar-se no solo com o corpo erguido
e as pernas dobradas colocando a planta de cada pé entre
a panturrilha e a coxa (da perna contrária).
Gomukhásana, postura da cabeça
de vaca.
I:20.
Gomukhásana: o pé direito se coloca do lado
do glúteo esquerdo e o pé esquerdo junto
ao direito. Esta postura se parece à face de uma
vaca.
[Manuais modernos acrescentam que devem unir-se as mãos
atrás das costas, com um braço elevado acima
da cabeça e o outro recolhido por baixo.]
Virásana, postura do herói.
I:21.
Vírásana: um pé se coloca por cima
da coxa oposta e o outro fica encaixado embaixo da coxa
do mesmo lado.
Kúrmásana,
postura da tartaruga.
I:22.
Kúrmásana: sentar-se de forma equilibrada
com as plantas dos pés cruzadas sob o períneo.
Kukkutásana,
postura do galo.
I:23.
Kukkutásana: em padmásana, se introduzem
as mãos entre as coxas e as panturrilhas; apóiam-se
firmemente não solo e se levanta o corpo.
Uttána kúrmásana,
postura da tartaruga elevada.
I:24.
Uttána kúrmásana: adotando kukkutásana
(sem fazer a elevação do corpo), segura-se
firmemente a nuca com os dedos das mãos entrelaçados
e se permanece assim, como uma tartaruga elevada.
Dhanurásana,
postura do arco.
I:25.
Dhanurásana: segurando os dedos maiores dos pés
com ambas as mãos, manter uma perna esticada enquanto
se aproxima a outra da orelha, como se se estivesse tensionando
um arco.
Matsyendrásana,
postura do yogi Matsyendra.
I:26.
Matsyendrásana: coloca-se o pé direito na
parte superior da coxa esquerda e o pé esquerdo
junto à parte exterior o joelho direito; segura-se
o tornozelo esquerdo com a mão direita e o pé direito
com a mão esquerda (passando o braço esquerdo
por trás das costas); permanece-se com o corpo torcido
ao máximo para a esquerda (depois, repete-se tudo,
torcendo para o outro lado).
[Existe outra variação desta postura com
o dorso do pé direito apoiado no chão ao
invés da virilha, o que torna a execução
bem mais fácil.]
I:27.
Esta postura incrementa o apetite estimulando o fogo gástrico
(pitta); é um remedio contra as doenças mais
mortais. Com a prática regular se desperta kundaliní e
se evita a dispersão do néctar que se derrama
desde a lua (o soma chakra, no intercílio).
Paschimottanásana,
postura de alongamento intenso.
I:28.
Paschimottánásana: permanecer com as pernas
estendidas no solo, segurando os dedos dos pés com
as mãos e apoiando a cabeça sobre os joelhos.
I:29.
Este excelente ásana faz que a força vital
(prána) flua através de sushumná,
estimula o fogo gástrico (pitta), flexibiliza as
costas e elimina todas as doenças que afetam às
pessoas.
Mayúrásana, postura do pavão.
I:30.
Mayúrásana: colocam-se as mãos firmemente
no solo e eleva-se o corpo no ar, apoiando o ventre sobre
os cotovelos; o corpo fica reto como um bastão.
I:31.
Este ásana cura diversas doenças como o inchaço
do abdômen e moléstias digestivas (gulma e
udara) e outras enfermidades abdominais; elimina as disfunções
provocadas pelo desequilíbrio entre vata, pitta
e kapha; facilita as digestões pesadas e ajuda a
digerir incluso o mais poderoso dos venenos (kalakuta).
Shavásana, postura do cadáver.
I:32.
Shavásana: permanece-se estendido no solo com o
rosto voltado para cima, como um morto (shava); este ásana
elimina o cansaço ocasionado por outros ásanas
e proporciona descanso à mente.
Posturas
de meditação.
I:33.
Shiva ensinou oitenta e quatro ásanas; descrevem-se
agora as quatro mais importantes: siddhásana, padmásana,
simhásana e bhadrásana.
Siddhásana,
postura perfeita.
I:34.
A mais confortável das quatro, siddhásana,
deve praticar-se sempre.
I:35.
Siddhásana: aperta-se com firmeza o calcanhar esquerdo
contra o períneo e coloca-se o direito por cima
do sexo (na altura do púbis); mantém-se o
queixo pressionando a base da garganta e permanece-se sentado
em posição erguida, com os sentidos controlados
e o olhar fixo no ponto entre as sobrancelhas. Siddhásana
permite atravessar a porta que conduz à perfeição.
I:36.
Siddhásana faz-se também colocando o calcanhar
esquerdo por cima do pênis (medhra) ou da vulva (yoni),
e o calcanhar direito por cima deste.
I:37.
Alguns chamam esta variação siddhásana;
outros a conhecem como vajrásana, muktásana
ou guptásana.
I:38.
Igual que entre os yamas e niyamas, as práticas
mais importantes são a moderação na
dieta e ahimsá, os siddhas sabem que o mais importante
dos ásanas é o siddhásana.
I:39.
Entre os 84 ásanas, se deve praticar sempre siddhásana,
pois purifica as 72.000 nádís.
I:40.
O yogi que, praticando siddhásana durante
doze anos, medita sobre sua autêntica essência
(átman) e come com moderação, alcança
o sucesso (siddhi) no Yoga.
I:41.
Se se domina o siddhásana e se consegue conter o
prána dentro do corpo com a prática de kevala
kúmbhaka, não será necessário
praticar os demais ásanas.
I:42.
Quando se tiver conquistado a perfeição no
siddhásana, pode-se desfrutar o êxtase proporcionado
pelo estado meditativo chamado unmani avasthá que
surge espontaneamente; os três bandhas aparecem de
forma natural, sem esforço algum.
I:43.
Não existe ásana como siddhásana,
nem kúmbhaka como kevala, nem mudrá como
khecharí, nem absorção (láyá)
como a que acontece no som primordial (náda).
Padmásana, postura do lótus.
I:44.
Padmásana: coloca-se o pé direito sobre a
coxa esquerda e o pé esquerdo sobre a coxa direita;
cruzam-se os braços pelas costas e seguram-se os
dedos maiores de ambos os pés, o do direito com
a mão direita e o do esquerdo com a mão esquerda;
pressiona-se o queixo contra o peito e fixa-se o olhar
na ponta do nariz. O padmásana cura as doenças
do yogi.
I:45:46.
Colocam-se os pés sobre as coxas opostas e as mãos
no colo com as palmas para cima, uma por cima da outra;
fixa-se o olhar na ponta do nariz e toca-se com a língua
a raiz dos incisivos superiores, pressionando o queixo
contra a base da garganta para assim elevar apána
com suavidade mediante a contração do ânus
(múla bandha).
I:47.
Esta é (outra variação de) padmásana,
destruidora de todas as doenças (unicamente) em
pessoas de grande percepção.
I:48.
Adota-se padmásana, com uma mão sobre a outra
(no colo, fazendo bhairava mudrá, com as mãos
em forma de concha) e o queixo firmemente pressionado contra
o peito, medita-se sobre Brahmá, contraindo retiradamente
os músculos do ânus para impulsionar a forca
vital apána em direção ao coração.
Analogamente, leva-se a força vital prána
váyu para baixo (contraindo a garganta pelo jalándhara
bandha). Desta forma desperta-se a força kundaliní e
se alcança o conhecimento supremo.
I:49.
O yogi, sentado em padmásana, inalando através
das entradas das nádís [as narinas] e alimentando-as
com prána, alcança a liberação;
não há dúvida sobre isto.
Simhásana, postura do leão.
I:50.
Simhásana: colocar os calcanhares (com os pés
cruzados) sob o sexo, com o direito tocando o lado esquerdo
do períneo e o esquerdo tocando o lado direito.
I:51.
Colocar as palmas das mãos com os dedos entendidos
sobre os joelhos; com a boca aberta, concentrar o olhar
na ponta do nariz.
I:52.
O simhásana é muito apreciado pelos melhores
yogis. Este excelente ásana facilita os três
bandhas (múla, jalándhara e uddiyana bandha).
Bhadrásana,
postura virtuosa.
I:53.
Bhadrásana: colocar os tornozelos sob o sexo a ambos
lados do períneo, o direito à direita e o
esquerdo à esquerda (com as plantas dos pés
unidas).
I:54.
Manter os pés firmemente unidos com as mãos
e permanecer imóvel. Bhadrásana cura todas
as doenças.
I:55.
Este ásana é chamado gorakshásana
pelos yogis avançados (siddhas). O cansaço
desaparece ao assumi-la.
Conclusão.
I:56.
Depois dos ásanas e bandhas, continua a seqüência
na prática do Hatha Yoga com as distintas variações
de kúmbhaka, os mudrás e a concentração
no som interior (náda).
Dieta moderada.
I:57.
Com toda certeza, o brahmachari que observe uma dieta moderada
e pratique o Hatha Yoga renunciando aos frutos de suas
ações, converter-se-á em um siddha
no prazo de um ano.
I:58.
Seguir uma dieta moderada quer dizer alimentar-se com comida
agradável e doce deixando sempre livre uma quarta
parte do estômago e dedicando o ato de comer a
Shiva.
Dieta a evitar.
I:59.
Não se consideram adequados para o yogi os alimentos
amargos, agros, picantes, salgados ou muito quentes; os
vegetais verdes (diferentes dos recomendados), os legumes
fermentados, o azeite de sementes, o gergelim, a mostarda,
as bebidas alcoólicas, o peixe, a carne, o requeijão,
o soro, a manteiga, os grãos de tipo chhaasa, os
feijões em forma de rim, as frituras, a asafétida
e o alho.
I:60.
Também devem evitar-se a comida requentada, os alimentos
secos, demasiado salgados ou ácidos e os alimentos
com muita mistura de vegetais (difíceis de digerir).
Hábitos.
I:61. Ao principio, devem evitar-se o fogo, as relações
sexuais e as viagens. Goraksha ensina que "no início,
o yogi deve evitar as companhias inadequadas, aquecer-se
junto ao fogo, as relações sexuais, as viagens
longas, os banhos frios de manhã cedo, o jejum e
o esforço físico exagerado".
Dieta recomendada.
I:62.
Os seguintes alimentos são recomendados para o yogi:
trigo, arroz, centeio, cevada, produtos feitos de cereais,
leite, manteiga clarificada (ghee), açúcar
mascavo, mel, gengibre seco, pepinos, patolaka, os cinco
legumes (jivanti, vastumulya, aksi, meghanada e punarnava),
feijão de tipo mung e água pura.
I:63.
O yogi deve tomar alimentos nutritivos e doces, misturados
com leite e ghee, que aumentem os elementos corporais
(dhatus: pele, sangue, carne, gordura, osso, medula e
sêmen) e que sejam agradáveis.
Conclusões.
I:64.
Qualquer pessoa que pratique ativamente Yoga, seja ela
jovem, velha ou mesmo muito velha, enfermiça e débil,
pode converter-se em um siddha.
I:65.
Qualquer um que praticar pode conseguir a perfeição
(siddhi), a menos que seja preguiçoso. Não
se conquista a meta do Yoga apenas lendo livros.
I:66.
Tampouco se conseguem os siddhis vestindo-se de uma forma
determinada ou especulando sobre o Yoga: somente se triunfa
através da prática constante. Sem dúvida,
este é o secreto do sucesso na prática.
I:67.
Enquanto não se tiver sucesso no Rája Yoga
devem praticar-se os diferentes ásanas, kúmbhakas
e mudrás do Hatha Yoga.
[Aqui
conclui o primeiro capítulo do Hatha Yoga
Pradípiká, que versa sobre os requisitos
e atitudes para a prática, os ásanas e a
dieta recomendada pelos sábios.] |